por e.fuzii
Manter-se em pé com fé. Era esse o lema de John Locke na sua primeira passagem pela Ilha. Longe dali, esse episódio acompanha um homem completamente diferente daquele visto nas temporadas anteriores, provando que o acidente foi determinante para sua mudança de postura, após se ver livre da cadeira de rodas e podendo mover seu pé novamente na praia. Era praticamente seu sonho tornando-se realidade, num misto de alegria e perplexidade diante de um milagre, mas que contribuiu para aumentar sua confusão cada vez mais. Atingiu seu ápice quando John Locke foi brutalmente assassinado por Ben Linus no quarto de hotel, assim como Un-Locke revelou há alguns episódios atrás. Era essa confusão também que fazia transparecer todo esse medo percebido por Sawyer, simplesmente porque John Locke era refém também dessa nova "chance", sem saber se sua desobediência às ordens da Ilha poderiam acabar com esse sonho. Porém, a situação de John Locke em Los Angeles é completamente diferente. Mesmo ao lado de Helen e já planejando seu casamento, ele se mostra cada vez mais frustrado, a ponto até de ter mentido sobre sua jornada na Austrália. Talvez o encontro mais significativo tenha sido no estacionamento com Hurley, opostos na sorte e azar nesse caso, quando Locke mostra todo seu complexo em não aceitar sua condição. Ele não quer ser tratado diferente dos outros assim como não quer depender da boa vontade deles pelo resto da vida. E mesmo assim Locke desiste de procurar tratamento com Jack, mas encontra conforto nas palavras de Helen, que lhe apoiaria na condição que estivesse. Talvez sua felicidade não se encontrasse em dar sentido ao seu sonho, mas sim à sua realidade. Por essa razão, John Locke encontra nessa relação seu final digno, sem ter afastado a pessoa mais importante em sua vida. É também pela atuação de Katey Sagal -- pós-Sons of Anarchy quase outra personagem pra mim --, que as doces palavras de Helen nunca ameaçam cair no melodrama. Vemos ao final John Locke satisfeito em ser um professor substituto, além de um inusitado encontro com Ben Linus na sala dos professores, premissa essa que renderia várias histórias curiosas, no mínimo.
No entanto, com a série agora praticamente correndo contra o tempo, chega a ser preocupante a forma como essa linha do tempo em 2004 vem sendo desenvolvida. Por se dedicar apenas a mostrar o "presente", a ausência de flashbacks deixa algumas lacunas -- que pessimistas poderiam até chamar de furos -- nessas novas histórias. Na semana passada, o leitor Daniel questionou se as motivações que levaram Claire a embarcar no voo 815 eram as mesmas vistas na primeira temporada. Ou seja, se com a Ilha submersa ainda existiu algum vidente para mandá-la até Los Angeles e que, portanto, previu que Aaron deveria ser adotado. Nesse episódio temos mais um caso, quando na maior naturalidade Helen sugere que logo combinassem com seus pais para fazerem uma cerimônia de casamento rápida em Vegas. A questão que fica é se esse pai de Locke é o Anthony Cooper que conhecemos, um alternativo ou se Locke teria sido adotado por uma família diferente. Em todos os casos, fica difícil precisar, por exemplo, quem seria o responsável pelo acidente que deixou Locke paraplégico, a não ser que fosse uma fatalidade nas correções de curso do destino. Quem sabe quando fizer algum sentido essas duas linhas do tempo juntas e que pareçam enfim destinadas a convergir, já não faça a menor diferença o que veio antes. Mas pra mim, é urgente que deem motivos para acompanhá-las ao mesmo tempo, principalmente porque o que acontece na Ilha tem me atraído cada vez menos. Não só pelo fato de surgir um novo personagem no final com todas as respostas, mas porque o grande problema continua sendo na estrutura, estabelecendo cenas ao invés de executá-las.
Afinal, apesar de muita gente reclamar do episódio anterior, não vejo muita diferença na forma de entregar a resposta no final. Claro que a revelação sobre os candidatos à sucessão de Jacob, além de um dos usos dos números, é muito mais recompensadora do que visualizar Claire vagando como louca pela Ilha. Óbvio também que não teria a menor graça se muita coisa já fosse revelada anteriormente. Mas meu receio é que a série caia nessa armadilha de prestar contas no final, assim como aconteceu em Battlestar Galactica que para preencher grande parte das lacunas de sua mitologia acabou apelando para os delírios de um personagem. Enfim, o fato é que perde-se tempo demais no longo caminho pela floresta até que James finalmente perca a paciência e aponte a arma para a cabeça do Un-Locke. E tudo o que ele precisa fazer é garantir que tem todas as respostas, como tantos Outros já fizeram, para continuar sendo seguido. Nesse meio tempo, surge também outro mistério na forma de um garoto loiro, parecendo uma entidade da própria Ilha, censurando Un-Locke por ter matado Jacob. Ele responde com a frase clássica de Locke, mostrando que não apenas tomou sua forma, mas há também uma crise de identidade em seu interior. Pode até parecer confortável demais que ele assuma a forma de Locke, principalmente para ganhar confiança dos personagens e do público, mas o mais interessante é como a história dos dois tem paralelos. O homem de preto, que dizia querer voltar para casa na semana passada, só busca sua libertação também, nesse caso dos domínios da Ilha. Para isso ele encontra no inconformismo de Sawyer alguém que possa servir para seus planos.
Já na caverna, e depois de um momento desnecessário de tensão nas escadas (que só me fazia perguntar como eles sairiam depois dali), há a grande revelação do episódio. Un-Locke mostra os nomes de quem seriam os candidatos de Jacob para sucedê-lo protegendo a Ilha, cada um deles com um dos famigerados números assinalados ao lado: 4-Locke, 8-Reyes, 15-Ford, 16-Jarrah, 23-Shephard e 42-Kwon. Esse último apesar de parecer dúbio, acredito ser Jin, tanto por completar a lista apenas com nomes masculinos como por ser uma razão (ainda que rasa) para ter milagrosamente sobrevivido à explosão do cargueiro. Dessa forma, foi revelado que Jacob, assim como visto em The Incident, manipulou cada um deles para chegarem à Ilha. A partir disso, seria opção de cada um abraçar ou não o destino para eles escolhido.
Além do desespero de Richard Alpert, talvez seja ingenuidade demais acreditar que Un-Locke seja menos manipulador que Jacob, vendo agora como ele parece usar James para atingir seus objetivos. Assim como mostrado na balança, desequilibrada por Un-Locke como uma piada interna, talvez Jacob e seu antagonista precisassem chegar a um consenso se quisessem deixar a Ilha e, portanto, encontrar o novo sucessor talvez fosse sua grande chance. Mas esse plano parece simples demais, principalmente levando em conta a situação do candidato Sayid no templo. Enquanto isso, o corpo do candidato Locke é enterrado na praia ao lado dos antigos companheiros. Aquele que foi o primeiro a acreditar em seu destino mas sem nunca ter conseguido correspondê-lo. Afinal, basta lembrar como Locke nunca foi capaz de matar o próprio pai ou mesmo girar a roda de burro. Entre as palavras de Benjamin Linus, ele acredita que Locke foi alguém bem melhor do que ele, um homem de fé, para finalmente lamentar por tê-lo assassinado. Nas palavras de Lapidus, o funeral mais estranho do mundo. Nem poderia discordar de quem esteve ali presente.
Fotos: Reprodução.
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