sexta-feira, 17 de maio de 2013

[Mad Men] 6x07 Man with a Plan

"Move forward."

Após o choque inicial do anúncio da fusão repentina de duas prestigiadas agências de publicidade, as coisas começam a ser colocadas de volta aos eixos, com a CGC mudando para os dois andares ocupados antes pela SCDP, embora o novo nome ainda continue indefinido. Assim como continua indefinido também o futuro de seus funcionários, muitos deles ocupando cargos semelhantes, temendo passar pelos usuais cortes nestas ocasiões. Até mesmo os antigos sócios não parecem seguros, sem ter lugares suficiente ao redor da mesma mesa de reuniões, a não ser claro pelos grandes arquitetos desse plano: Don Draper e Ted Chaough. Enquanto Pete chega exigindo seu lugar, Ted é capaz de ceder seu assento à secretária e assistir tudo praticamente de fora. Há algum tempo toda trama envolvendo a agência precisava de maior dinâmica, que não fossem apenas conflitos entre seus coadjuvantes, e agora finalmente se estabelece esse embate entre Don e Ted. Ambos devem se respeitar mutuamente para a agência funcionar, mas já mostram diferenças cruciais no modo de trabalhar. Somando-se a isso a sempre questionável postura de Don em sua vida pessoal, enquanto que Ted vinha sendo até aqui retratado de maneira bastante afável, principalmente em relação a Peggy, parece impossível assumir qualquer lado nesta disputa. Para começar "dominando" essa batalha, Don recorre ao tradicional método de vencer o adversário pela embriaguez. Já Ted busca conselhos de seu antigo sócio e amigo, questionando sobre o mistério de seu oponente. Ao final, o cansaço dos primeiros rounds realmente vem à tona, com Ted pilotando o avião em meio a tempestade, enquanto Don nem bem consegue se segurar de tanto medo. O anúncio, de margarina, também envolve substituição, em um eterno conflito com um produto similar. Com a aproximação do final da década de 60, e consequentemente da série, parece cada vez mais claro que se não mudar, Don Draper será deixado para trás como o antagonista desta história. Peggy, numa de suas posturas mais destemidas desde então, espera por seu chefe em sua sala para reprovar aquela conduta, exigir que ele mude e siga em frente. Basta lembrar da outra vez que essas palavras apareceram na série, quando Don vai visitá-la no hospital logo após o parto, e perceber essa inversão de papéis.

O episódio traz ainda muitas outras cenas que remetem a situações que ocorreram anteriormente: Joan conduzindo Peggy ao seu novo espaço no trabalho, Roger tendo o prazer de demitir Burt novamente, a já mencionada tática de Don de embebedar Ted, assim como ele havia feito antes com Roger, até mesmo para conseguir seu primeiro emprego em agência. E finalmente Bob Benson, saindo dos bastidores em um momento providencial para ajudar Joan a chegar no hospital. Talvez cabe forçar um pouco para lembrar de uma cena parecida na sala de espera do hospital envolvendo Joan e Don, não pela situação em si, mas muito mais pelo cavalheirismo de Bob, que parece ter conquistado se não o carinho, ao menos a confiança de Joan. Se ele agiu de modo premeditado, como o homem que tem um plano no título do episódio, parece ser a grande questão, embora não mude o fato do charme do personagem ganhar destaque a partir de agora. Todas essas cenas recorrentes atingem uma convergência no final do episódio, quando é revelado a morte do segundo Kennedy, para tristeza da população americana. Em um dos momentos mais inspirados dos roteiristas ao incorporar um fato histórico à série, eles usam a demência da mãe de Pete para estabelecer esse clima de desesperança, em outro ciclo sem fim. Aliás, parece que os roteiristas não querem definitivamente dar folga a Pete.

Passando por um momento delicado na agência, temendo até por sua posição, Pete se vê obrigado a manter a mãe confinada em seu apartamento na cidade. Claro que isso se mostra muito mais desgastante para ele, que termina refém desta própria situação. Para aquele que sempre tentou imitar o mesmo estilo de vida de Don, Pete tem um desempenho cada vez mais decepcionante. Ainda mais fazendo o paralelo com a outro caso de confinamento do episódio, quando Don mantém Sylvia como sua refém sexual dentro de um quarto de hotel. Nunca seu jogo de poder chegou a esse ponto, de tomar literalmente a liberdade de alguém. Sylvia obviamente se sente seduzida por um tempo, embora saiba estabelecer os limites nas ordens de seu patrão, mas a medida que as torturas vão aumentando (confiscar seu livro talvez tenha sido a gota d'água), ela toma a decisão de dar um basta. Se é o final deste relacionamento, como a despedida no elevador sem sequer olhar para trás parece indicar, ainda acho frustrante por apenas somar-se a outro de seus casos. Embore ele termine beirando o desespero, quase implorando para ela desistir, esperava que Megan ainda descobrisse sobre essa traição. E Megan então? Cada vez mais desesperada para salvar seu casamento, sugerindo até que retornassem àqueles dias ensolarados no Havaí (ou o Paraíso), enquanto o marido sequer presta atenção nas palavras que saem de sua boca. A cena final é marcante, Megan aos prantos com a notícia do assassinato de Bobby Kennedy, Don Draper sentando do outro lado da cama, solitário e devastado. Mas devastado porque, ao contrário do outro evento trágico da temporada, a morte de Martin Luther King, ele não tem com quem se preocupar desta vez. Mulher, filhos, amante… nada mais parece ter qualquer importância na vida de Don Draper.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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sábado, 11 de maio de 2013

[Mad Men] 6x06 For Immediate Release

"Just once I would like to hear you use the word 'we'."

De todos os cliffhangers deixados pelo finale da temporada passada, certamente aquela imagem dos sócios "isolados" em janelas diferentes é a que mais me marcou e que parece ditar o ritmo dos episódios recentes. Não apenas porque a série tem de lidar com tantas tramas, que raramente tem pontos em comum (a não ser pelo tema do episódio), mas principalmente pela tensão recente na SCDP. Até aqui, é uma temporada muito preocupada em estabelecer segredos, em dimensioná-los e como isso parece afetar seus personagens. Indo na direção oposta, como o próprio título "For Immediate Release" sugere, esse é um episódio que retrata momentos de revelação. Já começamos com uma proposta de abertura de capital, discutida apenas por três de seus sócios, na calada da noite. Enquanto isso, Don Draper perde a paciência com Herb da Jaguar e dispensa o cliente em um jantar particular. Com a ajuda de uma aeromoça (alguém mais lembrou daquela série que nasceu querendo ser Mad Men?), Roger consegue colocar a agência na concorrência pelo projeto de carro futurista da Chevrolet. E essas três situações entram em conflito quando são reveladas ao mesmo tempo dentro da sala de reunião, com todos os outros funcionários assistindo pelo vidro, em um clássico momento de drama empresarial. Joan acusa Don de ser egoísta, de não reconhecer seu esforço para conseguir aquela conta, mas sua decisão provavelmente também seria outra caso soubesse que o capital da agência iria a público. Para complicar ainda mais, Pete descobre casualmente seu sogro em um mesmo bordel e acaba perdendo a conta da Vick em razão disso. Assim como já provou por diversas vezes, Pete tem dificuldades em manter seus segredos sob controle, saber a hora certa de recuar. Tentando pagar na mesma moeda, ele não só sai prejudicado nos negócios, como parece decretar o fim de seu casamento com Trudy.

Mas Don Draper promete resolver tudo isso. E quando vemos Don motivado para reverter uma condição adversa, podemos esperar qualquer coisa.

"So should we go home?"
"We? That's interesting."

Desde o casamento com Megan, apesar de ainda ter seu destaque como protagonista, Don perdeu muito de seu carisma na série. Depois de viver aqueles meses em lua-de-mel na agência, mesmo quando enfim voltou à área criativa, ele próprio reconhecia que estava se sentindo ultrapassado. Suas mais recentes apresentações para clientes também não pareciam ter o mesmo apelo que antigamente. Com a CGC passando também por dificuldades entre seus sócios, e ambas as agências nadando contra a correnteza das grandes firmas, parecia natural uma fusão como essa. Mas a forma como isso ocorreu, tão leve lembrando a fundação da própria SCDP, estabelece um clima de otimismo pelo futuro. Bem diferente, por exemplo, do episódio que este parece reverter, "The Other Woman" na temporada passada, quando Peggy sai pela porta da frente e Joan concorda com a proposta indecente de salvar a agência em um último ato de desespero. Assim parecem chegar ao fim estes dois arcos principais que vinham sendo constantes nesse início de temporada: Peggy buscando pela independência financeira e criativa de seu mentor, e a decisão de Joan ecoando até hoje pelos corredores da agência. Mas ninguém pode negar também que essa nova disposição é capaz de render novos arcos interessantes, prováveis conflitos tanto criativos como pessoais. Peggy aparentemente é a que mais saiu prejudicada com essa união. Don pede para que ela escreva a carta à imprensa imaginando a agência que gostaria de trabalhar. Mas por suas fantasias envolvendo Ted e sua aversão a mudanças, conforme disse a Abe, essa situação está bem longe de ser a que Peggy deseja no momento. Ainda mais trabalhando nas altas horas da madrugada para Don Draper, redigindo uma carta, como se fosse novamente sua secretária.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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sábado, 4 de maio de 2013

[Mad Men] 6x05 The Flood

"This is an opportunity. The heavens are telling us to change."

Mad Men já mostrou inúmeras vezes que não tem a pretensão de tratar dos fatos e ocorrências dos anos 60 como uma série histórica. É antes um drama de época, focado em personagens que vivem neste período de profundas mudanças. Porém, alguns eventos tornam-se tão marcantes para a sociedade americana que é impossível ignorar o impacto que também causariam nesses personagens. O assassinato de Martin Luther King certamente é um desses casos e, por chegar também agregado a toda luta pelos direitos dos negros, já era antecipado por muitos como um ponto importante na história. Assim, a introdução de alguns personagens negros, até em posição de destaque como no caso de Dawn, contribuíram para aumentar ainda mais a expectativa por esse momento. Mas Mad Men não perde sua essência, e apenas reforça que esse grupo de personagens, em sua maioria brancos, não estavam prontos para lidar com uma tragédia como essa. Podemos resumir nesse abraço de Joan em Dawn no dia seguinte, envolvendo toda uma constrangedora "culpa branca". Por isso, com temas tão diferentes, em períodos tão distintos, não parece muito justo estabelecer qualquer paralelo com The Grown-ups, o episódio que tratava da morte de Kennedy, a não ser pelo cuidado ao revelar essa tragédia ao público. Durante uma premiação de publicidade, nada menos do que Paul Newman acaba sendo o porta-voz da notícia na cerimônia, pegando todos de surpresa, dando início à tensão e a uma busca frenética por maiores informações. Outro fato curioso é que naquela ocasião Peggy prefere trabalhar no dia seguinte para evitar o clima de luto em sua casa, assim como Dawn provavelmente prefere passar o dia na SCDP, mas dessa vez consola sua secretária dizendo que ninguém deveria estar trabalhando neste dia. Mas as comparações terminam aí, já que o sentimento é outro, não existe um desejo de superação, um amadurecimento da sociedade, os personagens simplesmente parecem perdidos tentando entender o significado dessa tragédia.

Se na semana passada reclamava da falta de Ginsberg na série, esse episódio retoma sua história através de um encontro arranjado pelo seu pai, com uma professora judia. Durante o encontro a notícia surge, e eles acabam cancelando o jantar, Ginsberg volta para casa e seu pai cita a passagem da Arca de Noé, a inundação que dá título ao episódio, dizendo que em momentos assim as pessoas tem de escolher alguém para se apegar. Ou a alguma coisa, como é o caso de Harry, que lamenta os programas e horários comerciais perdidos na televisão por conta da cobertura dessa tragédia. Pete se revolta com essa postura do colega e chega a chamá-lo de racista, para logo revelar quanto é hipócrita, pouco se importanto com os direitos dos negros, mas por tratar-se de um homem de família assassinado. Da mesma forma, Pete tenta aproveitar a delicada situação para voltar para casa e consolar sua família, mas Trudy continua irredutível. Henry Francis vê uma chance aparecer para tentar a candidatura ao Senado por reprovar a postura de seu prefeito, tentando acalmar os ânimos em meio ao caos na cidade. Já Peggy, que abre o episódio de costas num radiante vestido amarelo, naquele famoso ângulo usado para retratar Don (e é cada vez mais interessante o quanto tentam fazer paralelos com ele durante essa sua ascensão), para depois ampliar o foco para o apartamento de seus sonhos e seu futuro com Abe. Aproveitando o momento turbulento, sua corretora tenta especular mais do que devia e acaba perdendo na negociação. Mas isso parece até providencial, já que dá a chance de Abe opinar sobre essa mudança de vizinhança, revelar seus projetos para o futuro e encher Peggy de esperança. Talvez minhas suspeitas de que esse relacionamento tivesse vida curta estavam equivocadas.

Na SCDP há ainda a visita de Randy, um estranho agente de seguros (tão estranho que não consegui deixar de lembrar de Ethan e a iniciativa Dharma), tirando proveito dessa tragédia para sugerir uma mudança nos negócios. Nada de muito substancial por enquanto, mas pela sua relação próxima a Roger, deve ser alguém importante nos próximos episódios. E Don Draper? Seu monólogo sentado na cama para Megan foi certamente bastante emocionante, embora fosse um daqueles momentos que Mad Men parece se render às palavras óbvias demais. No entanto, não sei exatamente relacionar com o tema do episódio, a não ser pela sua visita ao cinema com Bobby, assistindo ao mundo chegar ao fim na versão original de Planeta dos Macacos. Charlton Heston vagando pela Terra vazia no final parece um sinal do caminho de solidão que Don está se destinando. Embora não houvesse qualquer implicação da briga da semana passada com Megan, sabemos que o casamento continua passando por problemas. Sua maior preocupação é com Sylvia em Washington, e ele tenta fazer contato de todas as maneiras possíveis, mas sem qualquer sucesso. Agora quando ele revela finalmente conseguir estabelecer algum vínculo afetivo com seu filho, a preocupação dele em meio a seus pesadelos é pela sobrevivência de seu padrasto. De repente, a suspeita de que Don Draper precisaria de mudanças de postura e pensamento para acompanhar o ritmo frenético desse período já não parecem ser mais suficientes. Ele e tantos outros personagens que desfilam sua insensibilidade ao longo do episódio, precisam de mudanças bem mais profundas em seu próprio caráter.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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domingo, 28 de abril de 2013

[Mad Men] 6x04 To Have and to Hold

"I pray for you. For you to find peace."

Com o passar de várias temporadas, uma consequência natural para uma série como Mad Men que lida com tantos aspectos da sociedade de seu tempo, expandindo e explorando diversos núcleos, é a necessidade de episódios como o dessa semana. Acompanhamos o avanço de diversas tramas principais, seja dentro da SCDP, na concorrência pela Heinz ou no casamento dos Drapers, assim como outras históricas mais periféricas, como Joan e Dawn encontrando-se com suas respectivas amigas. No entanto, em muitos casos senti que uma atenção maior seria necessária, principalmente em relação à decisão de Peggy, traindo a confiança de Stan, que passou uma sensação de frieza extrema e poderia ser amenizada com um tempo maior de reflexão. No entanto, é curioso notar que todas as tramas se relacionam com essa concorrência entre as duas agências, gerando peças tão ligadas à época (sejam bem-vindos, espaços em branco!) mas ao mesmo tempo tão opostas. No caso do trabalho da SCDP, refletindo os encontros furtivos no esconderijo de Pete e a sala secreta na própria agência, Don tenta abstrair mais uma vez o produto -- assim como já havia feito com o hotel do Havaí -- e explorar a imaginação de seu público. Mas quem se enquadra melhor na proposta do cliente é Peggy, que repetindo as palavras de seu mentor durante a apresentação, propõe uma exposição maciça do produto na Times Square. Nenhuma das duas agências pode comemorar, porque quem venceu a concorrência foi a Thompson, mas o encontro depois no bar também não me agradou. Todos lamentando a derrota, de repente Ken entra furioso porque Raymond descobriu sobre o "Projeto K" e Stan sai de cena mostrando o dedo do meio para Peggy. Ficou parecendo um sketch sobre traição.

Mas talvez seja outro indício de que a traição de Don Draper esteja próximo de ser descoberta. Resta saber se isso acontecerá antes ou depois de se separar de Megan, afinal sabemos que quando ele compara sua mulher a uma vagabunda, é porque estamos acompanhando o início do fim deste relacionamento. "To have and to hold", além do nome da novela que Megan participa, é também um trecho dos votos feitos pelos noivos nas igrejas católicas americanas. Pela primeira vez Don parece incomodado com a cruz pendurada no pescoço de Sylvia, e ela não esconde que reza depois de cada encontro para que seu amante encontre paz de espírito. Porque, convenhamos, Don é um homem perturbado a ponto de não apenas correr para trair sua mulher logo depois de vê-la em cena com outro ator, mas por ainda reproduzir a cena com sua amante. A série já mostrou claramente que esses padrões se repetem na vida de Don, e deixava claro o distanciamento dos dois no final da temporada anterior, mas esperava que dessa vez seria Megan a tomar iniciativa e propor uma separação, cansada das velhas manias do marido. Enquanto ele se incomoda por Megan supostamente lhe trair sob a luz dos holofotes, ele age de maneira muito pior nos bastidores. Resta esperar que essa situação finalmente se inverta.

Já dentro da agência, as disputas continuam bastante tensas, dessa vez com Joan e Harry medindo forças para ver quem tem mais autoridade. É uma situação delicada de analisar, porque apesar da secretária de Harry ter burlado as regras, a dinâmica de horário numa agência como a SCDP sempre foi retratada como bem flexível. Basta lembrar da voltinha de Jaguar durante o expediente na temporada passada, por exemplo. Sem entrar muito nesses méritos, a situação serviu para mostrar que mesmo prestigiada por sua mãe e amiga pelo cargo executivo na SCDP, a razão obscura que permitiu Joan atingir esse cargo gera ainda muitas especulações dos colegas de trabalho. Não que faltasse méritos para isso, a SCDP provavelmente nunca sairia do papel se não fosse pela contribuição de Joan, mas sua decisão na temporada passada certamente nem permitiu que ela conquistasse mais respeito entre os colegas. Harry também está em busca desse respeito, só que por outro lado, invadindo a reunião de sócio, exigindo seu lugar, bradando sua importância na agência. E ele tem razão, ainda que fosse um babaca na maior parte do tempo, Harry foi um dos poucos a acreditar no potencial da televisão desde o início, mesmo que sem outra opção, e como sabemos sua presença na publicidade tende a ser cada vez maior (irônico também que Don Draper seja ameaçado em sua vida pessoal justamente pela televisão neste episódio). O que faltava a Harry era alguma iniciativa, como Peter por exemplo, e isso ele mostrou após receber seu bônus no encontro com Roger e Cooper. Como bem descreveu Dawn para sua amiga, a SCDP é um ambiente dominado pelo medo, e quem vence é aquele que consegue se impor neste sistema. Muito interessante esse olhar "estrangeiro" da secretária de Don, que se destaca na agência pelas diferenças e ao mesmo tempo não é respeitada pelo mesmo motivo. Só espero que em meio a tantas outras tramas, Dawn tenha mais sorte de se destacar do que Ginsberg, por exemplo, que levantou algumas questões interessantes sobre as famílias de judeus da época, para depois nunca mais ser lembrado.

Foto: Divulgação/AMC.


e.fuzii
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quinta-feira, 18 de abril de 2013

[Mad Men] 6x03 The Collaborators

"This is how wars are won."

Colaboradores nos tempos de guerra são aqueles que oferecem sua cooperação às forças inimigas, principalmente nos casos de ocupação, por isso tantas vezes são tratados como traidores. Poderia ter ligação a este período, um dos mais tensos da guerra do Vietnã, quando os Estados Unidos lançam sua ofensiva do Tet, situando assim o episódio no final de janeiro de 1968. Porém, esse conflito ético é apresentado em outras situações ao longo desse episódio: Peggy sendo coagida por Ted a usar uma conversa informal com Stan para ir em busca da Heinz, Pete ficando ao lado do cliente da Jaguar que prefere uma linha publicitária focada no varejo, ou até o próprio executivo da Heinz que tenta sabotar seu jovem colega de trabalho atrás de uma oportunidade igual na SCDP. E claro, os dois casos de infidelidade mostrados no episódio, principalmente pela cara de pau dos envolvidos.

Apesar da vontade expressa de interromper esse relacionamento no início do ano, Don ainda continua com seus encontros com Sylvia, sua vizinha do andar de baixo. A amizade entre os dois casais gera vários momentos de risco, a ponto de Don chegar em seu apartamento e encontrar sua mulher sendo consolada pela amante. Uma pena que para o espectador não existe praticamente qualquer suspense, já que acompanhamos todo desenrolar da conversa antes de Don aparecer. Apesar de algumas ressalvas ao esforço de Jon Hamm na direção, sua atuação foi um dos destaques do episódio, nos momentos de tensão, mas principalmente quando tenta (não) convencer os executivos da Jaguar a mudar de estratégia. Esta trama também possibilitou revelar outros detalhes do passado de Don através de flashback, mostrando a época em que se mudou com sua mãe de criação para um bordel. Porém, é um recurso que me parece desnecessário por mostrar um cenário que já vinha sendo montado em nossas cabeças desde as temporadas anteriores, além de bastante questionável como justificativa para seu comportamento em relação às mulheres, como dá a entender por Don deixar seu "pagamento" pela companhia de Sylvia. Até um jantar arranjado entre os casais acaba se tornando um encontro particular quando Megan não se sente bem e o Dr Rosen é chamado para outra emergência. Embora Sylvia tente resistir (sua culpa religiosa também parece ser importante), há todo um jogo de poder e sedução na mesa, duas armas que Don Draper domina, e portanto acaba prevalecendo. Poderia ser apenas mais um passatempo para ele, mas essa proximidade dos casais e a outra trama sobre infidelidade levam a crer que isso pode gerar uma enorme crise no casamento dos Draper, que também já não parece se garantir por si só.

Pete também leva uma de suas vizinhas para seu apartamento na cidade (oferecendo ingressos para assistir Hair!), mas não conta com a mesma sorte de Don, e acaba descoberto por Trudy depois da vizinha aparecer toda ensanguentada batendo em sua porta. Para quem acreditava que Pete estava manipulando sua mulher, criando todos aqueles motivos para pegar o trem todos os dias, era justamente o contrário, Trudy sabia muito bem o que estava fazendo. Certamente no melhor momento episódio, ela não parece tão incomodada com traição, mas porque Pete não cumpriu a parte dele neste acordo, em manter ao menos certa discrição para preservá-la na vizinhança. Ela coloca o marido para correr de casa, estabelece limites para suas visitas e ainda ameaça destruí-lo. Mas não sei também se seria avançado demais pra época uma reação assim, até se levar em conta que a violência contra a vizinha passa totalmente despercebida, impune. Quem também enfrenta conflitos de gênero é Peggy, que ao invés de ser respeitada pelos outros funcionários da agência, como dava a entender no episódio anterior, é na verdade temida por sua inflexibilidade. Por isso, ela acaba sendo vítima até de brincadeiras, o que se fosse um homem no cargo de liderança certamente não aconteceria. As conversas com Stan após o expediente são um dos poucos momentos que vemos Peggy relaxar, ser ela mesma, ser tratada de igual pra igual. Mas talvez fosse ingenuidade sua achar que entregando a informação para Ted de que um cliente em potencial estava saindo ao mercado não acarretaria esse dilema ético. Já na SCDP, Herb aparece na porta da sala de Joan para acabar com seu dia. Talvez o maior problema de ceder a um cliente assim da agência fosse que ele sempre voltaria a bater em sua porta. Claramente irritada, ela vai procurar refúgio na sala de Don, que também parece contrariado durante todas as reuniões da Jaguar. Não só porque parecia absurdo para ele mudar para uma estratégia daquelas, mas sinto que ele se sentiu vingado mesmo em um nível pessoal. Regras de conduta funcionam mesmo de forma curiosa na cabeça de Don. É curioso também notar como está sendo introduzido o novato Bob Benson (James Wolk da abreviada série Lone Star), como uma ameaça para os mais experientes, como uma versão mais nova do charme de Don Draper, como uma figura onipresente nos contatos da agência. Ele ainda parece oculto em muitas destas situações, mas assim que for revelado seu potencial é capaz de causar alguma agitação na SCDP. O que, convenhamos, está mais do que na hora.

Foto: Divulgação.


e.fuzii
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sexta-feira, 12 de abril de 2013

[Mad Men] 6x01-02 The Doorway

"I'm just acknowledging that life, unlike this analysis, will eventually end and somebody else will get the bill."

E a morte continua rondando a vida destes personagens. Passados pouco mais de 6 meses em suas vidas, períodos que parecem estar encurtando a cada nova temporada, Mad Men retorna para seu penúltimo ano na televisão, ainda marcado por essa fatalidade latente. Não haveria situação melhor para revelar a profunda mudança da sociedade em um intervalo tão curto de tempo quanto nos eventos sociais de final de ano. O que antes se traduziam em festas inesquecíveis, agora parecem suprimidas diante de tantos outros acontecimento, ou até simplesmente esquecidas, como na celebração de ano novo particular no apartamento dos Drapers. Se comparada à festa neste mesmo apartamento na premiere anterior então, parece até que estamos diante de um outro casal. Mas se considerarmos a dinâmica entre eles, de fato estamos. É interessante também estabelecer um paralelo com o piloto da série, quando nos é revelado apenas nos últimos minutos que Don Draper tem uma família no subúrbio. Dessa vez, pelo contrário, é guardado para o final que Don está realmente traindo Megan com a mulher do Dr. Rosen, em resposta ao cliffhanger que encerrava a temporada passada, a garota no bar perguntando se Don estava sozinho. No entanto, pela primeira vez, essa situação parece estar incomodando Don Draper. "Quero parar de fazer isso" é uma de suas únicas resoluções para o novo ano. Mas ele sabe que não seria capaz de parar, e pela reação de sua amante (a maravilhosa Linda Cardellini), ela também sabe disso. Durante o episódio, o que me incomodou foi essa camaradagem excessiva de Don com o médico, que não me parecia apenas mera curiosidade pela sua profissão ou por lidar frequentemente com a vida e a morte, mas uma relação próxima a ponto de dar até presentes fora de época. Com essa revelação final, tudo parece mais claro, Don tenta compensar um homem que consegue ser mais digno do que ele em todos os aspectos da vida.

O episódio começa sob o ponto de vista de alguém sofrendo um ataque cardíaco, para depois embarcar na jornada de Don pelo "paraíso", no clima e nas cores quente do Havaí, enquanto lê um trecho do Inferno de Dante Alighieri na praia. Sua atitude diante deste cenário é de completo torpor, como se não estivesse presente ali, passando quase dez minutos em silêncio. A palavra a quebrar esse silêncio é "army" diante de um jovem militar, bêbado no balcão do bar, que passa a relatar as atrocidades vividas no Vietnã, enquanto Don relembra seus velhos tempos de guerra na Coreia. Ele retorna à fria Nova York dizendo que viveu uma verdadeira experiência, impossível de colocar em palavras. Na agência, percebemos que apesar disso, apenas Don Draper continua exatamente o mesmo; barbas, bigodes e costeletas crescem em profusão no rosto desses personagens. Como se ainda estivessem aproveitando a brisa de mudança trazida pelo verão do amor, enquanto Don continua rejeitando a mera utilização do termo em uma de suas campanhas publicitárias. Então, quando sua viagem pelo Havaí também precisa virar propaganda, Don é o único incapaz de perceber a interpretação mórbida de sua experiência -- Stan chega inclusive a pensar que essa era justamente a "graça" do anúncio. Estaria Don também querendo se suicidar?

Provavelmente não, mas é muito forte sua curiosidade em saber o que este momento lhe reserva, abandonar sua existência física, com certeza ainda influenciado pelo suicídio de seu sócio, Lane Pryce, que continua in memoriam batizando a agência. Roger também se mostra perturbado neste sentido em suas sessões de terapia, cansado de buscar algum sentido para a vida. Sua análise que inclusive dá título ao episódio, diz que a vida é uma sucessão de portas, pontes e janelas que abrem e fecham todas da mesma maneira e levam fatalmente sempre a um mesmo caminho definido. Claro que não se deve levar a sério um personagem que conta piadas para si mesmo na terapia. Mas não à toa, posteriormente é revelado que a vítima do ataque cardíaco na primeira cena é Jonesy, o porteiro do prédio de Don, que ocupa esse piso térreo onde abre e fecha a porta para os moradores, convida-os a subir ou descer de elevador. Além disso, Roger enfrenta outros dois anúncios de morte no episódio: sua mãe, a única pessoa ainda capaz de lhe amar, e seu engraxate, que não é lembrado por nenhum outro de seus clientes. Talvez esse fosse um dos maiores receios de Roger, razão para ele finalmente desabar a chorar em sua sala. Assim como acompanhamos desde a temporada anterior, a sociedade vive o ápice do consumismo, os prazeres momentâneos nunca estiveram ao alcance de tanta gente, os relatos de guerra e violência na cidade chegam com uma facilidade incrível e o uso deliberado de alucinógenos faz com que esses personagens procurem sempre por uma nova experiência, inédita, transcendental. Roger não contenta-se com a chegada de um novo ano porque a promessa de um novo ciclo é na verdade apenas mais uma repetição.

Embora com uma atuação ainda discreta neste primeiro episódio, Peggy já mostra um pouco do progresso que teve nos últimos meses trabalhando na CGC. Superando a adversidade em uma campanha também prejudicada pela brutalidade do Vietnã e pelo sarcasmo da época, Peggy consegue impressionar seu chefe com uma ideia ainda mais brilhante para a propaganda de fones de ouvido. Porém, seu relacionamento com Abe ainda me parece um pouco turbulento, como se vivessem em mundos diferentes, e certamente teremos desenvolvimento durante a temporada. Mas o que me pareceu mais marcante foi a presença de Peggy na agência, sua autoridade diante dos outros funcionários, lembrando muito a confiança de Don Draper em seus tempos áureos. Ainda tivemos uma trama envolvendo Betty, que aparece com peso reduzido e tentando mantê-lo sob controle. Sua "descida" a um Village congelante (lembrando que o Inferno descrito por Dante é gelado) não deixa de ser também uma experiência inusitada, visitando um cortiço e entrando em contato com alguns jovens adeptos da contracultura. Obviamente sua tenacidade para resgatar a garota daquele lugar, como se fosse protagonista de um conto de fadas, deve-se principalmente pela história ser muito similar à dela. Porém, por mais que ela tentasse se apegar ao violino, a "identidade" da garota destinada a estudar em Juilliard, sua decisão de largá-lo naquele lugar mostra algum progresso. Betty pode não ser um ser humano exemplar (longe disso, aliás), mas já é recorrente desde a temporada anterior Betty ter alguns lampejos de maturidade e para representar isso nada melhor do que uma mudança na cor dos cabelos. Sally também apareceu pouco, mas já deu mostras de estar mais independente e menos reprimida na mansão dos Francis. Seu conflito com Betty, com os dois personagens em desenvolvimento paralelo, tem tudo para ser um dos destaques dessa temporada. É cedo ainda para dizer o que esperar do ano de 1968 na série, a única certeza é que esse estado de emergência e preocupação dos personagens está longe de chegar ao fim.

Foto: Divulgação.


e.fuzii
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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

[Breaking Bad] 5x08 - Gliding Over All

  “How much is enough? How big does this pile have to be?” – Skyler

“Tagging trees is a lot better than chasing monsters.” - Hank



Um grande acerto desta quinta temporada de Breaking Bad foi começa-la com aquele flashforward. Foram oito episódios em que não aconteceu nada que pudesse levar àquele momento. Pelo contrário. Enquanto a quarta temporada foi um verdadeiro inferno para Walter White (temendo ser morto por Gus, afastando-se de Jesse cada vez mais, Hank mais próximo da verdade), aqui tudo parece dar certo: destrói evidências da polícia, consegue fazer Mike e Jesse seus sócios, cria um laboratório à prova de investigações, rouba um trem e, por fim, elimina todas as pessoas que poderiam envolvê-lo com Gus Fring – inclusive Mike.


E, ao fim de “Gliding Over All”, as perguntas que aquele flashforward deixava, permanecem: Por que Walt parece tão acabado? Onde está sua aliança? Por que usa uma identidade falsa? A tosse é um sinal de que o câncer voltou? Pra que aquele armamento pesado? Seria frustrante não termos respostas se fosse o final de uma temporada “normal”, mas com esta divisão é preciso relevar muita coisa. Importa é que, além de servir como uma sombra que paira sobre cada ação vista nesta temporada, elevou a tensão de um episódio em que aparentemente não era pra ter tensão alguma. 


Sabíamos que os nove homens de Mike não seriam problema porque Walt teria ainda um ano pela frente – daí mais uma boa montagem que mostra rapidamente a eliminação de todos, no melhor estilo O Poderoso Chefão. E parecia óbvio que a passagem do tempo só poderia ser mostrada daquela forma, provavelmente a mais bela que a série já realizou (como se os realizadores tivessem esperado cinco anos por aquele momento para usar Crystal Blue Persuasion), no momento em que nada ameaçava o império do protagonista. 


O que não sabíamos (e não sabemos ainda) é que tragédia ocorre meses depois, fazendo cada sequência, a partir dali, ser carregada de tensão e perigo: Skyler, Walter Jr., Holly e Marie reunidos, com Jr. atendendo uma ligação e saindo; Skyler chegando em casa e encontrando luzes apagadas e aberta a porta que dá para a piscina; Skyler na cozinha e a porta de casa se abrindo; Jesse ouvindo alguém chegar em sua casa; e, claro, todos reunidos na piscina a poucos minutos do fim do episódio, sequência de parar o coração que me lembrou situação semelhante no final de Sopranos. Em todos estes momentos achei que algo aconteceria, graças à tragédia anunciada no início da temporada, mas também, em relação à família na piscina, a uma grande sacada. Walt desistindo dos negócios guia nossas expectativas e acreditamos matar a charada: algo terrível vai acontecer porque alguém não aceita a desistência de Heisenberg. E, para surpresa absoluta, algo totalmente diferente encerra o episódio.


Mas primeiro falemos sobre Walt desistindo dos negócios. Há uma história amplamente conhecida (e, confesso, não sei se é verdade ou mito) de que Alexandre, o Grande teria chorado ao perceber que não havia mais nada para conquistar. Cabe perfeitamente na história de Walter White: após cinco temporadas de pura adrenalina, tensão, medo, desespero, coisas hediondas e grandes conquistas, Walt consegue estabelecer seu império e nada tem a temer. É o que ele queria, bem explicitado na conversa com Jesse alguns episódios atrás, mas uma vez almejado o objetivo, e agora? A brilhante sequência da passagem dos três meses nos mostra um Walt que muito trabalha mas se vê à noite cansado e entediado, em uma casa imersa na escuridão, convivendo com uma esposa que o odeia e sem a presença dos filhos.


Ver o dinheiro que conseguiu (e que nunca gastará todo) talvez tenha sido o empurrão que precisava para perceber o vazio de sua existência. Ele até procura Jesse, não só porque se importa e quis pagar uma dívida (sabemos que por mais monstruoso e manipulativo, nunca houve nada que desmentisse o fato de que Walt gosta e se preocupa com Jesse), mas porque ele precisava manter um elo com o momento de sua vida que mais teve sentido; relembrar as aventuras com o trailer é se apegar a um passado que parece distante e que deu lugar ao tédio e a uma rotina que pouco envolve as pessoas com quem ainda se importa.
Mas é possível também que a desistência de Walt esteja relacionada a algo não visto (descarto a possibilidade de que ele mentiu para Skyler, pelo simples fato de que ele precisa dela para lidar com o dinheiro que ganha), como o resultado do exame que faz. Sabemos que a visita médica é rotina (também vimos isto na temporada anterior), mas o retorno do câncer é a forma mais contundente de mostrar ao personagem sua mortalidade. E que genial resgatar o dispenser de papel toalha, que continua lá, amassado, em um acesso de fúria de Walt quando recebeu boas notícias sobre a doença no momento em que já tinha aceitado sua morte (no episódio 2x09, “4 Days Out”). 


“Gliding Over All”, aliás, é uma coletânea de referências a vários momentos da série, sem nunca chamar atenção para eles (a não ser, claro, que tenha função dramática, como o caso do dispenser), como podemos ver neste link. Ainda podemos citar a fala “Learn to take yes for an answer” de Walt para Lydia, mesma coisa que ele ouviu de Mike em 4x02, “Thirty-Eight Snub” e também Walter Junior brincando de peekaboo com Holly.


E, por fim, temos a ida de Hank ao banheiro. Provavelmente o momento mais esperado da série, que sabíamos que chegaria um dia (mas não quando e nem como), é este em que Hank descobre sobre Walt. Até parece óbvio encerrar uma temporada assim, porque cliffhanger maior não poderia haver. Mas a situação é tão inusitada e inesperada que me fascina a coragem de Gilligan e seu time de roteiristas.


Primeiro, o erro de Walt. Mais uma vez vale lembrar a frase de Hank dois episódios atrás, sobre profissionais também cometerem erros. Critiquei a forma como conduziram os erros de Mike, porque destoavam do personagem. Mas não me parece ser o caso aqui: Walt é orgulhoso demais para não guardar o presente de um químico brilhante que, em dedicatória, diz ser uma honra trabalhar com ele. Ele fez questão de manter aquele livro como recordação de seu triunfo (e realmente é interessado na poesia de Whitman – Walt está lendo este livro logo após ganha-lo de Gale no momento em que Hank liga para ele em 3x06, “Sunset”) e não creio ser descabido pensar que circulou por cômodos na casa de Walt tantas vezes nos últimos meses que há muito tempo deixou de ser visto como evidência contra ele – se é que algum dia chegou a ser visto desta maneira. E nem quero entrar em questões do inconsciente, como Walter ter o desejo de ser pego ou viver perigosamente, como quando colocou Hank de volta às investigações ao falar que haveria alguém por trás de Gale...


A incrível coincidência, então, parece estar ligada àquela noção de carma e azar que tantas vezes rondou a série. Se Gilligan chamou o acidente aéreo de “Lucifer-ex-machina”, aqui nem é preciso mudar o nome do recurso, mas ao contrário, tornar literal o conceito: trata-se de uma verdadeira "Justiça POÉTICA". Se o castigo veio do céu quando os aviões colidiram, agora vem diretamente do inferno, mensagem especial de Gale. Que esta descoberta de Hank tenha se dado naquela situação, é alcançar um novo nível de tragicomédia. Além do fato de vir no exato momento em que Walt desistiu dos negócios.


As implicações disto são fascinantes. O que Hank fará ao sair do banheiro? Que tipo de investigação poderá fazer e o que mais pode descobrir, uma vez que Walt se tornará um pacífico dono de lava-a-jato? O quanto descobrirá sobre o envolvimento de Skyler (imaginem Hank seguindo-a e descobrindo a pilha de dinheiro)? Que tipo de reação esperar do homem obcecado por Heisenberg e que descobre tratar-se de seu cunhado, pai dos filhos que ele cuidou por um tempo e que ama como se fossem seus? Que teve seu tratamento pago por dinheiro vindo da “blue meth”? O que pensariam seus colegas de trabalho se descobrissem que o homem mais procurado do DEA vive tão próximo e intimamente dele?


E isto ocorre alguns meses antes de Walt completar 52 anos e estar com uma identidade falsa e armamento pesado. Será Hank a vítima que ficará entre Walt e algum criminoso (De Phoenix? Da República Tcheca?) que exige o retorno de Heisenberg para os negócios? Não dá para esquecer também a sequência no episódio anterior em que a polícia revista a casa de Mike enquanto este assiste a “Os Corruptos”, obra-prima de Fritz Lang. Um policial comete suicídio no início do filme e é a este acontecimento que os personagens se referem e que ouvimos em off quando há um close em Hank (e mais tarde ele simula se matar ao sair de sua sala para pegar café para um Walt choroso, com um tiro na cabeça, da mesma forma – e do mesmo lado – que o policial do filme).


São muitas especulações e apenas uma certeza: a de que um ano nunca demorará tanto para passar como este próximo. Sobreviveremos?




 

Hélio Flores

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

[Breaking Bad] 5x07 - Say My Name



“Do you really wanna live in a world without Coca Cola?” – Walt


“- How many more people are gonna die 'cause of us?” – Jesse
“- No one. None.” – Walt



Há um incômodo com a quinta temporada de Breaking Bad que ficou mais evidente com este “Say My Name” e a morte de Mike. Um dos meus maiores prazeres com a série sempre foi o desenvolvimento da trama, fluindo com incrível naturalidade, mesmo que os acontecimentos fossem surpreendentes e bombásticos. Algo ocorre como consequência de uma série de eventos anteriores, todos devidamente justificáveis, seja pela lógica interna da narrativa, seja pelo desenvolvimento que se pretende dar aos personagens. Até situações que podíamos acusar de um providencial “Deus Ex Machina” (a morte de Jane, o desastre aéreo, a bala que salva Hank no último segundo) tornam-se aceitáveis pelo próprio componente quase místico que a série desenvolveu em que carma, destino e sorte parecem rondar os personagens (não à toa o próprio Vince Gilligan chamou o explosivo final da segunda temporada de “Lucifer Ex Machina”).


No entanto, a nova temporada parece ter perdido um pouco desta capacidade de mover a trama sem que percebamos os dedos dos roteiristas. Até defendi, no texto anterior, a pressa com que o episódio “Buyout” passa da morte do garoto para a negociação da metilamina, porque, apesar de tudo, nada parecia forçado. Mas agora, para chegar onde queriam, os roteiristas abusaram um pouco.


Pra falar da morte de Mike, é preciso lembrar um pouco da morte de Gus Fring: uma das grandes sacadas da quarta temporada foi conduzir a trama a uma situação cada vez menos possível de manter Gus na série (a não ser que o protagonista fosse sacrificado), ao mesmo tempo em que mostrava ser impossível para Walt matá-lo. Isso só ocorre graças a um erro de Gus (talvez o único?), que foi levar Jesse a Hector Salamanca, perfeitamente justificado como toque final de uma vingança bem executada. Já o erro de Mike? Subestimar Walt. Várias vezes.


Hank disse no episódio anterior que até profissionais como Mike cometem erros. O problema é que houve uma grosseria nesses erros que não é congruente com o personagem. Ele não só aceita que Walt seja a pessoa que vá buscar seu dinheiro (que não queira Jesse é compreensível, mas por que ligar para Saul, se é a primeira pessoa que a polícia ficará de olho? Certamente que ele tem pessoas de confiança e que não estejam presas), como deixa para conferir a mala dentro do carro. Isto sem falar na coincidência de Walt visitar Hank no exato momento em que Gomez chega com novidades (e que Hank convenientemente diz o sobrenome de Mike para não ficarem dúvidas), novidades, aliás, que existem apenas por outra série de erros, desde o uso do mesmo advogado dos nove presos, como a guarda do dinheiro em cofres no mesmo banco. E nem vamos acrescentar a esta extensa lista a forma como algemou Walt no episódio anterior...


Há algo mais que me incomoda também neste final: por que chegar a este ponto? Gustavo Fring e os gêmeos primos de Tuco foram mortos porque chegaram a um momento em que suas presenças na série eram insustentáveis, e foram eliminados de maneira satisfatória e crível. Mike morre por nada. Um dos melhores personagens da série é também, se não me engano, o único que morre pelas mãos de Walt sem uma necessidade aparente. Pode parecer birra de quem não queria a morte de um personagem querido, mas não é isso. Acredito, inclusive, que Mike não caberia no que Gilligan e seus roteiristas planejaram para a reta final da série e que talvez este seja até um dos acontecimentos que levará a tragédias maiores. O problema é que me passa a impressão de que Mike morre covardemente pelas mãos de Walt apenas como parte do projeto “chegará-o-momento-em-que-ninguém-torcerá-pelo-protagonista”, como se Walt já não fosse detestável o suficiente.


Não que eu acredite que Walt fosse incapaz do que fez. Mas tudo acontece de forma estranha: parece impulsivo por conta da discussão, mas ele já tinha intenção por ter retirado a arma; como ele volta para o carro, dá a impressão de que não estava com a arma escondida no corpo (e se Mike conferisse a sacola ali mesmo? É esse tipo de questionamento que a série nunca nos deixou); nem mesmo a discussão se sustenta como uma verdade que lhe é jogada na cara. O argumento de Mike é furado. “Nós tínhamos uma coisa boa, Gus, o laboratório...” é mentira porque Gus sempre quis substituir Walt – por Gale na terceira temporada, por Jesse na temporada seguinte. Se há algo que não se pode contestar em Walt, é que ele tinha mesmo que matar Gus. Fica então uma motivação frágil para um assassinato que só ocorre por uma construção frouxa de elementos fáceis.


E a que se deve isto? Certamente os roteiristas e a direção continuam de alta qualidade. A escrita na abertura do episódio, com enquadramentos que vão se fechando sobre os personagens, é ótima, tornando verossímil e divertida uma situação duvidosa clássica (a de alguém que tem que convencer um outro de opinião fortemente contrária). Além do mais, com todos os problemas que vejo no final, é perfeito o contraste que mostra Heisenberg ainda como uma aparência de Walt que não se sustenta no particular, já que não sabe como reagir ao impulso que o leva a atirar em Mike – este, por sua vez, tem uma saída não apenas marcante pela bela composição de cena, mas também por colocar seu algoz no devido lugar: “Cale a maldita boca e me deixe morrer em paz”. Os roteiristas também continuam afiados na relação entre Walt e Skyler (e o segundo encontro dela com Jesse reforça a suspeita de que ambos de alguma forma irão se juntar contra Walt no futuro), na crueldade de Walt em mais um conflito com Jesse, e no desenvolvimento de Todd como soldado-aprendiz-psicótico.




O motivo, então, para que as coisas tenham saído dos trilhos só pode ser a divisão da temporada em duas partes. Eu consigo imaginar a série trilhando este mesmo caminho, chegando ao mesmo destino, mas de uma forma mais satisfatória, em que a morte de Mike aconteceria lá pelo nono ou décimo episódio de uma temporada normal com treze. Mas parece que Gilligan sucumbiu à necessidade de estruturar duas mini-temporadas, em que um arco completo se fechará no oitavo e último episódio deste ano, de modo que foi necessário apressar as coisas, nem que para isso precisasse sacrificar um pouco do que faz Breaking Bad ser uma aula de condução narrativa para as demais séries do gênero. É como se o autor, na verdade, tivesse preparado material para mais duas temporadas, e não uma com três episódios a mais. Não é uma tragédia, mas espero que o próximo episódio traga as coisas de volta aos eixos e nos deixe com novos e excitantes rumos para uma longa e amarga espera para seu retorno daqui a um ano.


Observação: um close e o último plano de despedida de Jonathan Banks para ilustrarem o post. Vamos torcer para que ele substitua Giancarlo Esposito no Emmy do próximo ano.




Hélio Flores

terça-feira, 28 de agosto de 2012

[fdp] 1x01 Juiz x Juiz


Estreou no domingo (fdp), a nova série brasileira da HBO, que pretende assim preencher sua programação com conteúdo nacional para se adequar à nova lei de cotas na TV paga. (fdp) conta a história de Juarez Gomes da Silva, um árbitro de futebol que tenta se manter incorruptível e atingir o sonho máximo de apitar uma final de Copa do Mundo. Desde que fora anunciada, o tema da série me atraiu por razões quase que pessoais -- mas não, não tenho nenhum árbitro na família -- e estava realmente ansioso para acompanhar o resultado na tela quando estreasse. Mas durante esse período, a medida que novas informações foram surgindo, percebi que (fdp) traria um drama leve, dando ênfase principalmente à vida pessoal de Juarez ao invés de investigar casos polêmicos nos gramados. Isso fica claro neste episódio piloto, que embora conte com uma sequência de quase 10 minutos envolvendo uma partida fictícia de futebol, serve como mero suporte à briga jurídica pela guarda do filho. E com certeza essa é a parte mais rasa da trama, com situações pouco inspiradas e apoiado em obstáculos morais apenas para fazer número, como a doença venérea transmitida à ex-esposa por Juarez. A tendência de aparar as arestas do roteiro com um estilo claramente publicitário, problema não só aqui mas na maioria das produções comerciais do cinema nacional, é o que mais irrita em (fdp), criando momentos até mesmo vergonhosos, como o quadro da família estilhaçado no chão. Já o "caso da semana" chega a ser interessante pelo juiz esperar que sua relação com o árbitro fosse suficiente para influenciar no resultado da partida, mas passa um ar até ingênuo, principalmente para quem acompanha os bastidores do futebol. Se a proposta da série é mostrar um árbitro honesto tentando sobreviver à pressão de sua "profissão", (fdp) tem poucas chances de ser relevante na televisão paga, até porque juiz nenhum é reconhecido pelos seus maiores acertos mas acaba sempre lembrado pelo menor de seus erros.

Foto: Divulgação.


e.fuzii
twitter.com/efuzii

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

[Breaking Bad] 5x05, 5x06 - Dead Freight, Buyout



“Out burying bodies?” – Skyler
“Robbing a train.” – Walt



E a Skyler só antecipou o que Walt terá que fazer: se livrar do corpo de uma criança. Que golpe violento o deste “Dead Freight”, uma montanha russa de emoções, pequenas tensões que vão se acumulando (quem é este menino na abertura? O que vai acontecer? E agora, o que Walt quer no escritório de Hank? Será que vão matar Lydia?) para culminar em clímax divertido, adrenalina bem executada que não deve em nada às melhores sequências de roubo do cinema. E quando nossos batimentos cardíacos estão voltando à normalidade, vem a paulada.


Não é que o episódio não nos tenha alertado sobre o que viria: mostrar o menino no início é estragar um pouco a surpresa, embora seja o mínimo (mas suficiente) necessário para dar “substância” (ou background) ao personagem; e a necessidade de não haver testemunhas foi bastante explicitada, tanto por Mike falando sobre sua experiência nesse tipo de serviço, quanto por Walt e Jesse deixando bem clara a ordem para Todd. Morte anunciada, mas não menos impactante. Principalmente porque sabíamos que Walt e Jesse não seriam capazes de algo assim (Walt, quem sabe, se não fosse de forma tão explícita), e talvez nem mesmo Mike. A própria questão de matar alguém já vinha sendo debatida, a ponto de Lydia criticar “Achei que vocês eram profissionais!”. Mas lá estava um profissional inesperado. Todd, que só conhecíamos por um par de cenas, mas suficientes pra tornar crível sua praticidade: soldado obediente, esperto, ávido por impressionar, sua expressão calma e sem emoções já dava mostras de tamanha insensibilidade.


“Dead Freight” é excelente do início ao fim. Há toda a habitual excelência na direção, nos aspectos técnicos, na escrita, atuações, etc. Mas é um destes episódios que acabam sendo lembrados e discutidos apenas pelos seus minutos finais, tamanho o choque e impressão que deixam em quem assiste. Não é sempre que um assalto desta magnitude é visto em uma série de TV, muito menos a morte de uma criança de forma tão brusca. Mas outras duas sequências me chamaram a atenção pelas possibilidades a que elas acenam: Hank e Marie cuidando de Holly, enquanto Skyler diz a Walt sobre a possibilidade do perigo bater em sua porta. Já sabemos que uma tragédia ocorrerá em breve (no máximo, em um ano) e penso se Skyler conseguirá sobreviver ao fim da série. De uma forma ainda mais trágica, a ironia seria o perigo bater na casa de Hank e dar de cara com Marie e Holly... O mais interessante é que cinco episódios se passaram e nada aponta para o que poderia ser este perigo e como daremos um salto de meses na série.


Por último, muito se falou sobre a referência que Hank faz ao filme “Fogo Contra Fogo”, que aborda um assalto e as coisas começam a dar errado quando um assaltante novato no grupo mata quem não deveria matar. Esta temporada de Breaking Bad tem sinalizado coisas em forma de referências cinematográficas que, francamente, não me parecem necessárias: Mike vê A Nave da Revolta em “Madrigal”, filme que mostra a tripulação de um navio ameaçada pela insanidade de seu capitão; Walt e Jesse veem Os Três Patetas, após o novo de trio de “empresários” decidirem pelo laboratório intinerante; e, claro, Walt e Jr. veem Scarface, filme referência da série desde seus primórdios (a fala de Walt “Todo mundo morre neste filme” poderia apontar para um possível desfecho da série, mas na verdade foi um improviso do próprio Bryan Cranston). O que acho desnecessário é que servem apenas para massagear o ego de quem vê, que pode se orgulhar de entender as referências – sobre o filme do Michael Mann, não sei se é proposital, mas há algo mais sutil e orgânico: há uma sequência em que o personagem de Al Pacino discute o relacionamento com a esposa e o plano/contraplano de seus rostos são preenchidos por escuridão; o mesmo ocorre com Walt na cena com Skyler, só há trevas a sua volta; também não dá pra ignorar Lydia enquadrada com as luzes da cidade ao fundo, algo recorrente nos filmes de Mann.




“I'm in the empire business.” – Walt



E então chegamos ao “Buyout”, que enfim coloca elementos que esclarecem o que está por vir. Primeiro, há uma crítica que Alan Sepinwall faz que é pertinente: o episódio trata de ir direto ao ponto que os roteiristas pretendiam com a morte do garoto, que é a dissolução da parceria entre Walt, Jesse e Mike. Em uma temporada de 13 episódios, seria provável um maior desenvolvimento das consequências que esta morte traz, em especial para Jesse. Algo tão impactante serve apenas para mover a história para seu próximo ponto, que ocorre antes mesmo de chegarmos na metade do episódio. Por outro lado, o cronograma apertado (apenas mais dois episódios para o fim desta primeira parte) não me pareceu forçar situação alguma, além de evitar o retorno a um status anterior da série – Jesse deprimido, tentando lidar com uma tragédia, foi tema do início das duas últimas temporadas e sabemos como aqueles episódios da 4ª temporada, vistos em retrospecto, acabaram sendo os menos interessantes.


É preciso destacar a abertura deste episódio, que me parece perfeita como representação da gravidade do que ocorreu. Sabemos, a esta altura, como os protagonistas se livram de um cadáver e a força dramática vem da substituição do corpo da criança pela sua bicicleta, desmontada e destruída parte por parte, com bela trilha sonora respeitando o momento (a imagem da mão do menino acaba por manter o horror e o gosto amargo da situação). A partir daí, tudo soa de forma bem natural, mesmo que aqui e ali soe apressado: Walt mostra como não há alternativa viável além de manter Todd, Mike se vê pressionado por Hank, investigação já em curso desde “Madrigal”, e Jesse sob impacto da morte decide apoiá-lo na dissolução do grupo (ajuda o fato de ouvir Walt assobiando despreocupadamente após o que parecia ser uma discussão séria e um lamento pelo garoto). O momento também é ideal porque a venda da metilamina que acabaram de roubar resolve os problemas financeiros de todos.


E é aí que finalmente surge a ameaça que estávamos esperando. O contato que Mike faz para vender a substância se interessa mais pela possibilidade de tirar a “blue meth” do mercado, o que força Jesse e Mike a tentar, cada um a seu modo, convencer Walt de vender sua parte. Como sempre, os roteiristas tem cartas na manga para tornar a coisa toda verossímil: Jesse até relembra o valor que Walt, um dia, sonhou em ter (737 mil dólares, número que dá título à premiere da segunda temporada), e como cinco milhões é mais do que suficiente para fazer todos desistirem dos negócios (e, como consequência, acabar com a série). É uma proposta irrecusável para Walt, e seria difícil acreditarmos em sua recusa tão veemente, mesmo sabendo de todo o seu orgulho. Mas a história que ele conta sobre a Gray Matter, como vendeu sua parte, o valor atual (“Bilhões. Com B”) e como semanalmente acompanha a situação da empresa, convence pelo tanto que conhecemos dele.


Já Mike, obviamente, usa a força, mas mais uma vez subestima Walt, numa peripécia para se soltar digna de MacGyver. Qual o plano para conseguir o dinheiro para Jesse e Mike (Jesse não chega a dizer que a ideia envolve VENDER a metilamina)? Como “todos ganham”? Walt estaria disposto a fazer uma parceria com o grupo de Phoenix (improvável por seu desejo de ser chefe) ou a intenção seria enganá-los (improvável porque Mike não arriscaria)? Seja como for, a tensão aumenta porque Mike conta com este dinheiro nas próximas 24 horas, antes que Hank consiga anular a restrição e feche o cerco sobre ele.


Com tanto pesar no início e tanta tensão ao final, “Buyout” ainda nos reservou um dos grandes momentos de humor da TV este ano: um jantar em que Walt coloca Jesse e Skyler na mesma mesa. O desconforto de Jesse é tão sensacional quanto a embriaguez de Skyler, que se retira da mesa carregando sua garrafa de vinho de modo que muito me lembrou a alcóolatra preferida de todo fanático por séries, Lucille Bluth. O drama, a esta altura da série, é pesado e intenso (especialmente no lado de Skyler, que ao contrário do que imaginei, só agora descobre que Walt disse a Marie sobre sua infidelidade), mas de alguma forma o humor não destoa, nem parece inconveniente. Sequer um “alívio cômico”, já que a situação é perfeitamente orquestrada por Walt, que se abre para Jesse mais como uma tentativa de ganhar sua simpatia em momento crucial da parceria entre ambos. Resta saber até que ponto esta parceria ainda existe e como os planos de Walt complicarão a vida de todos.



 
Hélio Flores


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

[Breaking Bad] 5x03, 5x04 - Hazard Pay, Fifty-One


 

 
“Just because you shot Jesse James, don't make you Jesse James” – Mike

“What are you waiting for?” – Walt
“For the cancer to come back” - Skyler


Uma das coisas mais fascinantes em Breaking Bad, e que a diferencia de toda e qualquer série atual que tem o suspense como gênero, é como os roteiristas se preocupam mais em dar uma continuidade natural e realista à trama do que gerar o suspense propriamente dito. Não há elementos novos (como uma nova ameaça a cada temporada de Dexter) que não sejam consequência dos atos dos personagens, não há mistérios que precisam ser mantidos por um tempo (como em The Killing), não há ambiguidade de personagens (Homeland), e mesmo um recurso como o flashforward não é desculpa para gerar interesse na série, fazendo dele um fim em si mesmo (como a esquizofrenia porca de Damages). Na verdade, em relação à cena que abriu a temporada, é incrível que metade desta primeira parte já se foi e nada parece nos levar a ela, e apenas somos lembrados pela tradição do bacon no aniversário de Walt e o relógio com seu tenso tic tac anunciando dias piores.


Não, o grande trabalho da equipe de Vince Gilligan é priorizar uma certa ordem “natural” das coisas e pensando como essa verossimilhança pode ter uma boa dose de tensão e suspense. E, claro, com bastante imaginação. Se Walt e Jesse precisam voltar aos negócios, não dá pra simplesmente escolher um novo local de trabalho. É mais “realista” mostrar a dificuldade de se achar um lugar ideal (não sem humor, com Saul tentando empurrar o laser tag abandonado que já havia tentado antes e que serviu de abrigo pra Jesse no fim da 3ª temporada) e terminar na brilhante ideia do “laboratório intinerante”. Da mesma forma que manter um negócio desses passa por uma série de dificuldades e pagamentos, algo inesperado para o arrogante Walt, o que acaba servindo de conflito entre ele e Mike.


E assim a série segue a passos lentos, dando importância aos detalhes, mas fazendo de cada cena um momento dramático intenso, sempre focando nas exigências da trama, sem sentir a necessidade de dar destaque a um ou outro personagem: se Skyler é o centro das atenções agora, é porque o momento exige; assim como Mike protagonizou um episódio quando era necessário mostrar as investigações que levaram a Madrigal, e Jesse pouco tem a fazer, mesmo sendo um protagonista da temporada anterior.


Tudo isso, claro, com Walter White como centro gravitacional. O que importa é sua derrocada e como ele leva a todos para o inferno. Nisto, “Hazard Pay” e “Fifty-One” são exemplares. Nos atos maiores, fingindo se importar com Jesse, mas envenenando seu relacionamento com Andrea (ele nem se importa quando o “amigo” diz que terminou com ela) ao menor dos atos (observem como ele abre a gaveta e joga as roupas de Skyler pra um canto, pra colocar as suas próprias), Walt acua, manipula e aterroriza seus próximos, simplesmente porque pode, já engolido por seu ego e orgulho. “Nada vai parar este trem”, ele diz. Sua família ainda importa, óbvio, mas tem que ser nos seus termos. A emblemática sequência em que ele recorda todo o ano vivido, enquanto está de costas para Skyler (e ela para ele) é a metáfora perfeita para seu relacionamento, que chega aqui no momento mais insustentável: a esposa que vê como única saída a espera pelo câncer (e fumar excessivamente não atrapalha seus planos) e o marido que quer uma aproximação distorcendo verdades de acordo com sua conveniência (a história sobre Ted para Marie ou dizer a Skyler como Jesse supostamente mudou de opinião sobre ele).





Os episódios não se resumiram a Skyler e Walt, mas é como ficarão marcados, dado a excelência do texto e dos atores. É como uma versão hardcore do início da terceira temporada, quando Walt força sua presença em casa, fazendo da esposa a vilã da situação. Mas tivemos também:


- Mike lidando com seus homens que tiveram o dinheiro confiscado. Engraçado quando Walt diz a Saul que ameaçar é o que ele faz, e provavelmente já ameaçou alguém antes do café da manhã, quando realmente Mike esteve cedo negociando o silêncio de quem estava preso;


- Novos personagens da empresa “Vamonos Pest”, responsáveis pela dedetização das casas que serão usadas como laboratório. Certamente terão impacto na trama, já que um deles é vivido por Jesse Plemons, o eterno Landry de Friday Night Lights. No papel de Todd, já mostrou esperteza (e desobediência) ao avisar Walt de uma câmera que ele desligou;


- Um episódio tão coeso e bem executado como “Hazard Pay”, é inacreditável que tenha sido tão povoado: teve não só Mike e os novos personagens, mas Marie, Andrea e Brock, Skinny Pete e Badger. E como sempre tem um jeito de toda cena ter uma informação nova, descobrimos que Skinny Pete tem uma grande habilidade musical, provavelmente destruída pelas drogas;


- Como já dito, Jesse terminando com Andrea. Acho uma pena que tenha sido fora da tela, já que esse relacionamento teve enorme importância na série (catalizador do clímax, tanto do final da terceira quanto da quarta temporada), mas com tantos eventos, é um pecado que estou disposto a perdoar. Outra elipse estranha é a de Skyler (já no episódio seguinte) saber que está sendo vista pela irmã e cunhado como infiel. Em que momento se deu isso?


- Falando em momentos fora da tela, ficamos sem saber qual a opinião do Walt sobre o que Mike deveria fazer com Lydia, exceto que Jesse acha a ideia ótima. Provavelmente é o que moverá o próximo episódio. Lydia, aliás, é assustadora de uma maneira bem peculiar. Atrapalhada, assustada, capaz de fazer uma loucura no desespero. Mike está certo em querer matá-la, mas parece que não é o que vai acontecer;


- Walter Junior sempre comendo. Já virou piada entre os fãs, especialmente no que diz respeito ao café da manhã. E acredito que os próprios realizadores adotaram como humor. Basta ver que mesmo na cena em que Skyler e Marie comem no lava-a-jato, lá está uma foto do rapaz fazendo parte da cena;


- Hank promovido. Não parece ser o que ele quer, e é uma forma breve e eficaz de mostrar que sua obsessão por Heisenberg continua, e desenvolver o personagem, colocando-o em outra posição;


No mais, grande momento de Anna Gunn na série. Do explosivo “Shut up!” ao confronto com Walt, não duvido que isto tenha lhe conseguido alguns votos no Emmy, mesmo que não seja por esta temporada que ela concorre. Será uma favorita para o ano que vem. No que diz respeito à direção, “Hazard Pay” parece bem mais comportado e sutil, enquanto “Fifty-One”, dirigido pelo cineasta Rian Johnson (que também dirigiu “Fly”), pode facilmente ser chamado de “metido a besta”, mas gostei bastante, especialmente das composições de Skyler no fundo da piscina (com resgate que corta no momento em que Walt aparece no quadro, dando a impressão de ser um agressor) e Skyler fumando ao final usando a caneca de aniversário como cinzeiro. 


Chama a atenção também as duas aberturas (Mike na prisão; Walt e filho com novos carros) que, ao contrário da especialidade da série, não impressionam ou são pomposas, mostrando que Gilligan não sente a necessidade de causar impacto o tempo todo. Às vezes menos é mais, principalmente quando o que se conta é tão bom.



 
Hélio Flores